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miércoles, 17 de abril de 2013

EL CARDENAL KASPER ADMITE LA AMBIGÜEDAD INTENCIONAL DEL CONCILIO




Por Unam Sanctam Catholicam | Tradução: Fratres in Unum.com – O Cardeal Walter Kasper fez uma declaração impressionante nas páginas do L’Osservatore Romano na última sexta-feira. Ao apresentar algumas reflexões sobre os desafios enfrentados pela Igreja e o problema (perpétuo) contínuo da “verdadeira interpretação do Vaticano II”, Kasper, falando sobre os documentos do Concílio, afirmou:

Em muitos lugares, [os Padres Conciliares] tiveram que encontrar fórmulas de concessões, em que, frequentemente, as posições da maioria estão localizadas imediatamente próximas àquelas da minoria, projetadas para limitá-las. Assim, os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito, sendo uma porta abeta à recepção seletiva em uma ou outra direção.” (Cardeal Walter Kasper, L’Osservatore Romano, 12 de abril de 2013)

Nas declarações do Cardeal, temos basicamente uma afirmação de uma tese fundamental de Michael Davies e da maioria dos tradicionalistas: de que os próprios documentos conciliares têm ambiguidades em si e estão sujeitos a uma multiplicidade de interpretações. Este conceito de ambiguidade conciliar tem sido negado por muitos apologistas conservadores/populares, que insistem em dizer que os documentos conciliares são claros como o dia e que somente a malícia dos dissidentes é que está impelindo uma falsa interpretação que é responsável pela nossa atual confusão.

Entretanto, os tradicionalistas e,  ironicamente, também Kasper, têm insistido que a destruição que seguiu o Concílio pode ser remetida aos próprios documentos. Mesmo se os Padres Conciliares não planejaram o desastre que se seguiu ao Concílio (e a maioria concorda que não o fizeram), os próprios documentos foram construídos de tal modo a permitir interpretações progressistas ao serem colocados em mãos de teólogos e bispos progressistas. Contra o mantra conservador de “documentos perfeitos – implementação imperfeita”, Kasper sustenta a crítica tradicionalista de que “documentos imperfeitoslevam à implementação imperfeita.” Bento XVI tinha apresentado o mesmo argumento. Existe uma relação íntima entre os documentos e sua implementação. Porém, Kasper faz mais do que apenas admitir que “os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito”; ele chega ao ponto de afirmar que essas ambiguidades, esses conflitos em potencial, foram parte de um programai intencional. Ele não diz simplesmente que os textos suportarão diversas interpretações, mas que essas passagens ambíguas foram “fórmulas de concessões” produzidas para aplacar dois lados opostos, de tal modo que elas podem ser interpretadas de uma maneira ortodoxa, porém, podem ser facilmente distorcidas pelos progressistas para apoiar a sua malícia.

Essas são o que o finado Michael Davis chamou de “bombas-relógio” nos textos conciliares. Davies escreveu, “Essas ‘bombas-relógio’ foram passagens ambíguas inseridas nos documentos oficiais pelos periti ou peritos liberais – passagens que seriam interpretadas em um sentido não tradicional, progressista após o encerramento do Concílio”. (Michael Davies, Liturgical Timebombs, Rockford, Ill: Tan Books, 2004, página 23). Davies tomou emprestado a expressão “bombas-relógio” do livro do Arcebispo Lefebvre, Um bispo fala, que basicamente havia apresentado o mesmo argumento. Na entrevista de Kasper, não temos nada menos do que uma admissão de que não havia apenas bombas-relógio, mas que elas foram colocadas lá intencionalmente, e nesse ponto ele e Lefebvre estão de acordo. Esta é uma admissão impressionante. Kasper fez muitas outras afirmações interessantes que minam outros aspectos da narrativa conservadora do Concílio. Por exemplo:

Para muitos católicos, os desenvolvimentos colocados em movimento pelo concílio fazem parte da vida diária da Igreja. Porém, o que eles estão experimentando não é o novo grande começo nem a primavera da Igreja, que foram esperados naquela época, mas sim uma Igreja que tem uma aparência invernal e mostra sinais claros de crise.

Isso contraria o mantra prevalecente da era João Paulo II de que estamos experimentando uma “nova primavera” e uma admissão cândida de que existe efetivamente uma crise, a despeito do fato de que alguns, como, por exemplo, o Cardeal Timothy Dolan, continuem negando essa verdade clara. Esta simples admissão de fato, de que a Igreja está em crise e não está experimentando a prometida primavera pós-conciliar, é de importância considerável para avançarmos. E seja lá o que possamos pensar mais de Kasper, gosto de sua sinceridade neste caso.

Falando da confusão que surgiu depois do Concílio, Kasper disse: “Para aqueles que conhecem a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos , este [estado de confusão] não será uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano [Segundo], entretanto, é um caso especial.

Esta admissão importante, que também afirmei em outro lugar, realmente desmascara o chavão de católicos conservadores de que aquilo que estamos experimentando na Igreja moderna é normal, uma vez que há sempre confusão após um Concílio. Isso pode ser verdadeiro, mas Kasper observa que a confusão que se seguiu ao Vaticano II é “um caso especial”, diferente da turbulência dos períodos anteriores. Esse também é um argumento frequentemente apresentado pelos tradicionalistas, que enxergam no Concílio Vaticano Segundo não apenas outro evento eclesial com o nível padrão de confusão após a sua realização, mas sim um novo tipo de evento eclesial que não pode ser facilmente classificado ao lado dos Concílios do passado. O Cardeal Kasper afirma as posições de Michael Davies, Lefebvre e dos tradicionalistas? Esses são tempos estranhos, sem dúvida.